30/06/2010

Improvisação e teatro formal

Entendemos como teatro formal àquele que nos habituamos a assistir em uma arquitetura própria, com texto, atores e platéia. E temos a impressão de que, estando o cenário construído, o texto regiamente decorado, os atores concentrados, direção e produção impecáveis, não pode haver, portanto, maneira de algo escapar ao que foi determinado. Mas isso é parte do encantamento provocado por esta arte antiga. Todo o trabalho, desde a escolha do texto até o fechar do pano da última sessão é, e deve sempre se dar, sob condições inesperadas.

Senão, acenda um cigarro – é mais barato e não tem o menor escrúpulo de ser mecânico:

A luz derrama impressões nostálgicas sobre os poucos móveis dispostos com simplicidade na pequena sala – um aparador baixo sustenta um abajur queimado do lado direito do feio sofá descorado, um pouco mais adiante à esquerda, cercada por três cadeiras, a mesa retangular é coberta por um caminho de renda velho e na parede do fundo, atrás do sofá, uma janela de dimensões mesquinhas feita mesmo para não trazer e nem levar novidades.
No centro da cena, mal sentada na beira de uma cadeira, ombros encolhidos, as mãos pousadas no ventre magro, a personagem repete, por minutos infindáveis, a mesma frase: “Meu amigo Anacleto”. Cada inflexão corresponde um olhar novo de vívida memória, de admiração funda, de carinho, de ternura contida, gratidão eterna, que ela mesma não compreende, lá com seus botões, haver guardado de “Meu amigo Anacleto... Anacleto, meu amigo... Amigo Anacleto... Amigo, Anacleto, amigo, Anacleto, Anacleto, meu amigo Anacleto”.
A atriz, no centro da cena, senta-se desconfortável numa cadeira, as mãos sobrepostas empurram o ventre e com dramática tensão os ombros jogam o pescoço para trás no esforço desesperado de encontrar, no seu arquivo mental, o resto do texto. Não tem idéia de onde se encontra. Diante dos olhos voam centenas de folhas de papel em branco. Presa no tempo sabe que cada palavra, cada ponto, cada acento, cada marcação é “deixa”. E a ladainha martelando os sentidos: “Meu amigo Anacleto. Anacleto, meu amigo??? Anacleto! Meu amigo.... e... o que mesmo?!! Meu amigo... Alguém está usando aquele perfume, é?... Ah! Pro inferno. Anacleto, meu amigo Anacleto... finge tão completamente... que finge... sai pessoa. Anacleto, analfabeto, anarquia, anacleto...”
A mulher que é a atriz que faz a personagem também é arrancada da segurança competente de seu oficio. Não vê o nó, mas sabe que é parte dele. Evita as luzes nos olhos. Nas coxias ninguém pode ajudar, é arriscado, mas engraçado. Não, não pode rir agora. Que parto! Demora, mas acaba. De algum jeito há de ter solução. Concentra-se nos pés doloridos emprestados à personagem. “Que vidinha de merda essa a tua, mulher! Com um amigo desse, sei não... Anacleto! Grande amigo Anacleto!”
Hora e meia mais tarde, dividindo com parte do elenco um prato de caprichada pasta ao sugo, a mulher tropeçava a fala com úmidas gargalhadas mal represadas. Mais uma noite de função, foi. A atriz, profissional de “ser”, comovia-se com a admiração da platéia, da crítica, dos colegas. E aquela personagem, a personagem daquela noite, deixou por lá seu mesquinho sentar, o desconfortável abajur queimado, o caminho de renda velho da janela, a luz descorada, o cenário cercado. Está agora no hall da fama das histórias vividas por uma das mais conceituadas atrizes do Brasil.
Tomamos a história de uma mulher que tem por profissão ser atriz. Ou seja, de uma mulher que fez carreira representando no teatro, no cinema, na televisão e daí tirou, com dignidade, o seu pão de cada dia. E como a arte imita a vida, mesmo sendo uma atriz compenetrada e cônscia de sua atividade, ela, ou qualquer outro profissional, não está livre (e acredito que nem queiram) do imprevisível.
Suspensos no tempo os minutos infindáveis do “branco” forçam a improvisação. Que, neste caso, confirma a existência da personagem através do talento da atriz. A repetição da frase “Meu amigo Anacleto” implica a personagem no enredo que é seu e obriga na atriz uma percepção variada do falar e do ouvir.

“...enquanto redobramos o texto sobre ele mesmo,produzindo assim sua relação consigo mesmo, sua vida autônoma, sua aura semântica, nós o reportamos também a outros textos, a outros discursos, a imagens, a sentimentos, a toda a imensa reserva flutuante de desejos e de signos que nos constituem.” (Pierre Lévy - Nós somos o texto -).

No caso do teatro formal a improvisação é o recurso possível para ocupar um lapso de memória que chamamos de “branco”. É certo que este recurso é tanto mais ou tanto menos explorado quanto for a disponibilidade da vítima. Disponibilidade que independe da idade, do tempo de trabalho cênico, do apoio da equipe; é mais a forma de experimentar o risco, ter paciência com o que está por vir sem dar tempo, no momento em que acontece, de considerar o porquê. Ter consciência de que algo está fora da ordem e, no entanto, nada saiu do lugar. No exemplo dado, a novidade é a repetição em si que provoca a improvisação que em si já é novidade.

Miriam Gaspar
04/05/2010

Um comentário:

  1. Miriam, eu estava pesquisando o blog da Cia Ormeu de Teatro e Dança e fiquei encantada. Seu texto está fenomenal. Na verdade, percebo que a equipe como um todo respira a beleza da arte da expressão. Encheu os meus olhos...
    O trabalho de vocês torna mais bonita Cataguases, Minas Gerais, o mundo...
    Dara

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